quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Anjo e a Ave

O Anjo e a Ave
Mommentum ad Infinitum

Na curva do Tempo, no lugar exato, onde a Terra se une ao Céu, e abre o portal rumo ao impossível, Arcanjo Rafael, observava o ocaso.
Estava preguiçosamente sentado sobre uma nuvem: cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto apoiado nas mãos.
Divagava, deixando a mente passear por outros mundos, suspirando profundamente de encantamento, sentindo dentro de si, tanto amor quanto somente a plenitude angelical é capaz de sentir.
Foi quando muito abaixo de si, movendo-se sobre a Terra, avistou um pequenino ponto branco.
Sua atenção prendeu-se então naquela pequena forma, que, pela altura onde ele se encontrava, parecia mover-se centímetro a centímetro.
Sua curiosidade despertou, como ele de seus devaneios.
Sim. Porque os anjos são extremamente curiosos, pois são eternos aprendizes de milagres.
Ergueu-se e planando suavemente, desceu rumo á Terra.
E lá estava, de tal alvura nunca antes vista pelos seus olhos profundos, uma pequena Ave a andar dispersa.
Imediatamente encantou-se com a beleza daquele pequeno ser. Anjos são sempre seduzidos pelo belo, pois do belo são a essência.
Uma oração silenciosa, em forma de doce sorriso, nasceu de seus lábios, e abriu caminho pela sua alma adentro, esgueirando-se com tal força que uma flor do seu lado nasceu.
Mas observando mais atentamente a pequena ave, viu no semblante dela a angústia. Todo êxtase que sentia, transformou-se imediatamente em profunda comoção.
Sim. Anjos apenas podem locomover-se pelos dois mundos, porque usam a Bondade como asa.
O pequeno pássaro, como que sentindo que não estava mais sozinho, virou-se e deu de cara com o grande arcanjo.
Levou um tremendo susto.
Sim. Porque apesar de crer profundamente em anjos, não sabia ser possível encontrar um deles assim a esmo.
Com o susto que levou, suas asinhas se abriram, mas então, com um espasmo de dor, aconchegou-as novamente junto ao seu pequenino corpo.
Ora, ora! Mesmo sendo a função dos anjos, aliviar a dor dos que sofrem, quem disse que com isso eles se acostumam?
Lá estava o anjo grandão, e de seus olhos, duas lágrimas mornas brotaram, descendo pela sua face e caindo ao solo em forma de estrelinhas.
A Ave, vendo o Anjo pegar como própria, a dor que era somente sua, sentiu avivar dentro do peito, a chama que o Pai de Todas as Coisas lá havia plantado.
Sentaram-se frente a frente, como conhecidos da vida de todas as vidas e conversaram longamente.
A Ave contou que fôra deixada naquele lugar pelo seu bando, porque nunca aprendera a voar.
Seu coração doía pela saudade dos seus, e as asas, dormentes e feridas, não suportavam mais serem pressionadas pela sua falta de coragem.
Arcanjo Rafael, compreensivo, lembrou de si mesmo e das inúmeras tentativas para aprender a voar. Levara muitos tombos.
Sim. Anjos nascem com asas, mas também precisam aprender a usar esta complexa ferramenta.
O anjo fitou o horizonte, e á distância viu uma enorme ponte, e então teve uma idéia genial.
Cuidadosamente pegou a pequena ave e para lá voou velozmente.
Por horas e horas, mostrou-lhe as mais diferentes manobras, que a Ave, com os olhos cheios de admiração, na beirada daquele enorme precipício, tentava assimilar.
Arcanjo Rafael sumia por entre nuvens, e então, rápido como um raio, atirava-se no vazio. E sempre ao passar pela sua amiguinha, fazia caretas, arrancando-lhe o riso mais cristalino.
Mas repentinamente, uma asa na outra, com muita força ele bateu, perdendo o equilíbrio e foi caindo, caindo, caindo.
Nossa, mas que desespero sentiu a Ave! Sem pestanejar por um momento sequer, fechou seus olhinhos e lançou-se atrás de seu querido amigo.
Quando os olhos abriu, suas pequenas garras já haviam agarrado aquele anjo trapalhão.
Olhou atentamente para ele e percebeu um risinho maroto.
Ora, ora! Anjos são puros, mas por ter uma alma de criança, eles fazem travessuras sempre!
Com profunda felicidade, voaram lado a lado, o Anjo e a Ave e somente se ouvia o farfalhar de suas asas.
Toda natureza parara, comovida, para assistir o milagre do amor.
Sim. Pois não há coragem e nem amor maior do que arriscar a vida pela vida de um amigo.
E lá do Céu, o Pai de Todas as Coisas, também sorriu feliz.
Quando chegou a hora em que a janela do tempo fecharia a passagem para os dois mundos, os dois amigos sentiram no peito a despedida.
A pequena Ave queria muito ir para o mundo do Anjo; e este; queria por demais permanecer no mundo da Ave.
Mas sabiam que cada qual tinha uma função importante a cumprir.
Então, a Ave, com seu bico, uma pena de si mesma arrancou, e o Anjo, em sua própria asa a plantou.
Sorrindo o sorriso da vida, voaram cada um rumo ao seu destino.

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